terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Tá ficando tarde

Já não era sem tempo, Sr. Doutor
É hora de fazer um trato, dividir os danos, separar os estragos
E ver quem paga pela situação.
Olha quanta coisa tá quebrada, até mesmo o velho braço de minha enxada
Pague a vista, nada de cheque ou cartão.

Digo...
Você me viu de longe e analisou os fatos
E sabe mais do que eu que não fiz por mal.
Mergulhei fundo naquele nobre regato
Tentando fazer daquilo meu oceano, de fato
Mas me perdi no meio da natação.

A parte dura dessa longa história é ver de longe apagar memória
E eu aqui, acenando com minhas mãos.
Tão cansado de tentar ser outro, passando de sufoco em sufoco
Humildemente, te peço perdão:

Eu queria mesmo era criar desfecho
Tô cheio de tanto choro, dessa falta de apreço
Preciso mais é de um novo ar.
Preciso mais é aprender a amar.
Preciso mais é voltar a andar.
Preciso mais eu sei lá de quê.
Me desculpe não saber dizer, talvez um dia a gente volte a crer
E aí então não haverá o que temer.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Seiva.

Me lembro apenas que era véspera
Um dia antes do futuro todo
Minha cabeça foi rolando morro abaixo
E você falando do sufoco.

Eu queria ser malandro, pular o muro
Dar a volta ao mundo.
Rir da piada do português, falar um idioma novo, tipo francês
Mas resolvi ficar.

Quem me chamou foi você
E mesmo sem implorar, eu disse sim, sem titubear
Compramos uma caixa de Brahma no cartão
A fatura vem depois, deixa o agora assim, tranquilo, esquece a tal da razão.

E nessa rede, balançando tranquilamente
Sentindo o vento refrescar
A gente planejou a festa, ligamos pra vovó e avisamos:
- Vamos nos casar!

Quanta gente feliz, andando de lá pra cá, cantando acolá
Eu, de terno e gravata, enforcado, sufocado, e todos ados que tinham que vir
Você, linda, linda, linda
Deu medo, mas fiquei em pé, um pouco tonto ainda.
E nessa hora me lembrei do dia
Aquele que você falou pra eu ficar
Eu disse sim e hoje vejo que a gente tinha era muita história pra contar.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Até breve, escoteiro.

Nos mandaram para a floresta, onde supostamente armaríamos a emboscada que desencadearia o que eles chamavam de vitória. Éramos quatro. Eu, meu velho amigo Fritz e dois peruanos que não tinham nada a perder.
O tempo não ajudava e chovia mais do que a própria chuva gostaria.
Enquanto armávamos o acampamento, víamos em cada olhar o medo se propagar gradualmente. O medo da morte, da dúvida e da ausência de amor.
O que nos levou até lá já não importava tanto e era naquele momento escuro e silencioso que sentíamos as consequências de nossas escolhas.
Tive que parar por um segundo e trocar algumas poucas palavras com Fritz.
- Escute aqui... Me diga o que te aflinge, meu caro.
Ele, com a serenidade que só ele possuia, respondeu:
- É difícil responder agora. Estamos no meio de uma guerra que não é nossa, pagando um preço que não podemos pagar. Hoje me lembrei de Stella e senti falta de seu amor. Lembrei que minha coragem se baseava nas lembranças que tinha dela, mas agora que preciso de toda coragem, não consigo sequer recordar seu rosto e muito menos seu sorriso. Para um homem que decidiu lutar, falta agora força. Força essa que era tirada de algo tão simples e pequeno e que talvez por ser tão pequeno assim, agora já não consigo ver mais. Escute, meu caro. Sabes que o tenho como irmão e que se já não consigo alcançar a felicidade que tanto buscamos, peço que você a encontre por si só. Estamos caminhando para o fim e eu que já não tenho mais nada a perder, tal qual esses dois que não entendem sequer uma palavra do que dizemos, peço que você volte para a casa e volte a amar. Nas horas duras como essa pela qual passamos agora é que conseguimos distinguir o que realmente vale a pena nessa nossa curta, porém conturbada, trajetória. Eu vou indo agora fazer o que me mandaram e você tome seu rumo, corra, fuja ou faça o que for preciso para voltar para aquela mulher que você deixou a esperar, pois sei que ela ainda o espera. E quando chegar, diga a ela que a ama e que não consegue viver sem ela. Diga-a que errou e que se arrepende e que precisa do seu perdão. Abrace-a com a força que lhe restar e beije-a com todo furor do seu coração e fique com ela até o fim de seus dias, pois só assim sua vida valerá a pena. É isso que me aflinge.
Agora, quando conto essa história pra vocês, crianças, me lembro das lágrimas que caiam do rosto do Fritz e vejo o quanto os amigos são importantes para nossa caminhada. Seja em guerra ou na beleza dos bons momentos.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Amor interior.

Olha o céu que cor que tá, Maria
Parece com aquela água suja que fica na bacia
Fala pro Tião que eu não vou mais capinar
Essa chuva que tá vindo pode até é me matar
E 'cê sabe que o véio tem um medo que não cabe
Quando cai aqueles raio e destrói nossa cidade
Lembra, véia, aquele dia que o vento veio forte
Eu disse pro 'cê o quanto tenho medo da morte.
Que bão que cê me abraço, dizendo que ia passar
Se não fosse pur causa do 'cê, logo logo eu ia chorar.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Biscoigumelos

Tá rolando um som estranho aqui por dentro
Um barulho que de noite impede que eu fique sonolento.
Fico então a conversar com o poeta
Dizendo que minha meta é criar meu universo.
Ele ri e a gente chora, coisa de gente grande
Eu imploro pra que fique meia hora, coisa pouca, fico triste quando vai embora.
É amigo de poucas horas, pois esse vai e vem o cansa muito
Diz que dorme por semanas e, enquanto isso, me contento com o silêncio mudo.
Quando amanhece, coço os olhos e reflito sobre o tempo
O velho homem que me deu alguns conselhos se esqueceu que envelheço, mas não cresço.
Que em minha face crescem pelos, nascem rugas... que desespero.
E o meu lamento se traduz nessas poucas palavras
Digo que sou forte, mas vejo que o que me falta é raça.
Tô querendo um pedaço do céu, o amor de Rapunzel e um pote de geléia
Sentado nessa rede, conversando com a parede é difícil que isso chegue.
É nessas horas que penso em me mudar
Pra um lugar qualquer, pacacidade, me casar com essa mulher
Ter um filho, um lar, quatro garfos e uma colher
Um pássaro pra chamar de Zé, uns poucos pés de café
E o resto, seja o que Deus quiser.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Vorta, mula!

Houve uma grande discussão e um barulho ensurdecedor.
Durante o dia andamos um pouco, tranquilamente, para ver o que sobrou.
Era verão e o tempo tinha tudo para sorrir
Enquanto a onda invadiu e a gente ficou sentado, à beira do abismo, olhando o sol de pôr.
Tive medo de que tudo mudasse.
Tive aquela dor que você disse que viria.
Fiz meus planos e tudo mais que tinha para arrumar...
Dos quilômetros que voei, alguns muitos foram tirados para pensar.
Quanta coisa há por aqui, quanta coisa há pra mudar.
Eu só queria um novo dia, mais um pouco de amigos, uma vaga do seu lado.
Um supapo na orelha, quatro colheres de chá.

Olha só onde eu vim parar... do lado de alguns que nunca vi e outros que já vi mudar.
E quando eu tive medo e vi o tempo parar, alguém me cutucou e disse que logo logo iria melhorar.

Tô aqui fazendo escolha,
Dando nome as coisas,
Descobrindo um mundo,
Olhando o lado que nunca vi.

Quem sabe tudo se firme
e eu, então, fique pra cá.
Filosofando sobre o nada
Comendo meu vatapá.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Catapult (Ou a memória do Macaco)

Ficou evidente que escolhemos a caixa errada
e que dentro dela saiu o veneno que te deixou assim
Enquanto a gente esperava a batida dos sinos do além
algo tomou conta do ar deixando-o mais frio do que podíamos suportar.

E nesse estalar de dedos, vimos cair a cortina e o cemitério de almas gritou com força:
- Um dia após o triunfo é tão vazio quanto o dia após uma tragédia.

Você então fez as escolhas que cabiam a você
E me deixou um pouco mais de lado a cada passo.
Te vi saindo sem dizer adeus.

"Estamos ainda no mesmo barco", era o que eu pensava
e esse oceano de mágoas fará com que nada nos separe
E toda aquela história que nos fez duvidar
afunda agora com o medo que temos de acabar.

O erro que se escondia atrás de sua orelha ou na manga de seu casaco se fez presente e mostrou que a ida era algo ainda pendente e no fundo desse mar você repousa só.